Em 2019, me inscrevi para fazer um curso com a Brenda Morales Muñoz, cujo título era “Maternidades disidentes: reflexiones desde la literatura” [Maternidades dissidentes: reflexões a partir da literatura]. Até então, confesso, as mães literárias (e também as não literárias) não me despertavam uma atenção especial. Dividia a representação materna de maneira muito hermética e dicotômica: as boas mães e as más. Nuances, cores, ambiguidades não faziam parte do meu repertório de leitura (e de vida).

 

       As leituras que realizei para aquele curso foram feitas enquanto colocava o meu filho para dormir ou o deixava na frente da TV para ler só mais um pouquinho. As vozes de mães insatisfeitas, de mulheres que não queriam ser mães, de mulheres que tentavam dar conta de ser mãe, de mães que tentavam amar seus filhos, se misturavam às vozes dos personagens dos desenhos animados, das meninas superpoderosas ou dos 44 gatos. Cada leitura, um golpe e um reconhecimento. Ler aqueles contos, romances e ensaios me fazia não só olhar para personagens tão mais complexas do que o sim ou o não, mas também para a minha própria experiência de maternidade.

 

       O curso me marcou tanto que decidi fazer da representação das maternidades na literatura o meu objeto de estudo. Desde 2020, muito do que faço em meu trabalho é ler e discutir sobre isso. Foram tantas obras lidas que, hoje, para mim, mãe se tornou um substantivo cuja definição não cabe nas linhas do dicionário (a propósito, você já leu as definições de mãe que figuram nos dicionários?).

 

       Foi outra Brenda, a escritora Brenda Ríos, que me apresentou a obra Maneras de escribir y ser/no ser madre [Maneiras de escrever e ser/não ser mãe]. Quatorze relatos de escritoras mães e não mães e as suas experiências de escrita. Ao ler a obra, a primeira evocação que fiz foi do ensaio Um quarto só seu, de Virginia Woolf. Distantes geográfica e temporalmente, as escritoras mexicanas parecem ainda reivindicar algo que Virginia não encontrava em sua Inglaterra vitoriana: um lugar (e um tempo) para que as mulheres pudessem (e possam) se dedicar à escrita. Mas, nesses textos, também afloram temas que extrapolam o privado e falam do corpo feminino no coletivo: abuso, aborto, a livre escolha da maternidade. Cada um dos relatos é uma peça de um conjunto que nos convida a ampliar os horizontes do que é ser mulher e do que é ser escritora.

 

      Durante o segundo semestre de 2023, ministrei uma disciplina de tradução na UFPR. A ideia de traduzir esses relatos para o português tinha ficado guardada desde a minha primeira leitura. Escrevi para a Ave e para a Lola, contando do meu projeto de traduzi-los com meus alunos. Gentilmente elas me passaram o contato das autoras que gentilmente cederam os direitos de tradução e publicação dos seus textos para uma edição brasileira. Deixo aqui o meu muito obrigada a cada uma delas.

 

     Foi em uma conversa com o editor Thiago Tizzot que surgiu a ideia de colocar os relatos das autoras mexicanas em diálogo com relatos de autoras brasileiras. Entrei em contato com inúmeras escritoras, pois a ideia era que seus textos pudessem ilustrar não só a escolha pela maternidade/não maternidade, mas também a diversidade regional, social, racial e de gênero do nosso país. Você vai perceber que os relatos das autoras brasileiras que aparecem neste livro são um recorte ainda bastante marcado de um grupo de mulheres brancas, classe média, do sul-sudeste do país. Mas eu queria que você soubesse que não foi por falta de tentativa que esses limites não se estenderam mais. Você também vai notar que há mais relatos de escritoras mães do que não mães. Por alguma razão, as mães se sentiram mais impelidas pelo convite.

 

       Dadas essas explicações, gostaria de reconhecer e agradecer a cada uma das escritoras brasileiras que aceitou ceder os direitos do seu relato para compor esta obra. Sei que ocuparam o seu tempo e seu espaço (seu precioso tempo-espaço) de escrita para se dedicar a esses textos. Cada um deles fala de escrita, fala de mãe, fala de filho, fala de não ser mãe, fala de alegria, fala de dor, fala de vida.

 

         Ave e Lola, obrigada por podermos estender esta ponte. Aqui ou aí, ou em qualquer outro lugar, que as mulheres possam fazer livremente as suas escolhas e que possam continuar escrevendo.

 

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