Antes de ser palavra, este livro é água.
Antes de ser narrativa, é luz em deslocamento.
Em Um pouco antes de uma vez por todas, Marcos Beccari transpõe para a escrita o mesmo gesto que orienta suas aquarelas: permitir que a forma surja no encontro entre controle e acaso. O livro se organiza em blocos e personagens que não se fecham em histórias lineares, mas se articulam como fragmentos de uma mesma travessia: figuras que avançam, recuam, caem, esperam, atravessam.
Ao longo dos contos, surgem figuras em suspensão: um corpo que retorna a um lugar decisivo, uma consciência que observa a própria vida à distância, uma voz que segue falando quando já não há interlocutor possível. São narrativas de deslocamento, de perda, de espera e de passagem, em que o acontecimento central quase nunca é o fato em si, mas aquilo que o antecede: o pensamento, a hesitação, o silêncio.
Cada parte se ancora em uma lógica arquetípica, inspirada na estrutura simbólica das cartas de tarô, como se o livro fosse atravessado por uma antiga sequência de imagens e gestos humanos: queda, travessia, suspensão, revelação que ordena a experiência sem jamais se impor como leitura fechada.
Há monólogos, cenas rarefeitas, narrativas interrompidas, personagens à beira do esquecimento ou do limiar. O que une essas vozes não é a causalidade, mas a proximidade com o instante-limite: o segundo anterior ao gesto final, à palavra definitiva, ao ponto sem retorno.
Como o aquarelista que conhece a precisão da transparência, Beccari controla o caos sem domesticá-lo. As metáforas se acumulam como camadas de cor, as frases se alongam quando o pensamento exige fôlego, e o silêncio passa a ser também matéria do texto. Nada se resolve por completo: o livro avança por sugestões, ecos e ressonâncias. Ao final (se é que há um final), Um pouco antes de uma vez por todas se abre como uma catedral sem paredes, feita de vento e de intervalo. Um livro que não oferece respostas, mas experiência. Porque certas coisas não se explicam: apenas acontecem.
E acontecem sempre um pouco antes.
Carlos Machado, Curitiba, 2025.
